Ao impacto seguiu-se uma dor seca na testa que se propagou em ondas e transformou num alívio repentino a descer pelo corpo. Olhou surpreendido para a mossa no estuque branco e, finalmente, compreendeu o que é andar a bater com a cabeça nas paredes.
Cabeçada
•13 Novembro, 2009 • Deixe um ComentárioSr. Infeliz
•11 Novembro, 2009 • Deixe um Comentário
O dinheiro nunca lhe trouxera propriamente felicidade, mas agora também não se sentia mais infeliz do que quando era rico.
O sopro
•25 Julho, 2008 • Deixe um ComentárioO panfleto
•27 Abril, 2008 • Deixe um ComentárioIsaurinha tremeu. O estrondo quase deitou a porta abaixo.
– Abram! É a polícia!
– O Joaquim deve ter sido denunciado por causa daquele panfleto, pensou. Apoiou-se com ambas as mãos na mesa de cozinha.
– Precisa de um calço há meses, lembrou-se.
Os dedos apressados afundaram-se na algibeira das calças do marido e reemergiram segurando a folha suspeita impressa a vermelho. Dobrou-a em oito, usou-a para calçar a perna coxa da mesa e foi abrir a porta. O cabo e o soldado da GNR irromperam pela casa dentro. Atrás deles, um civil de gabardina.
Quando se virou, já Joaquim tinha enfardado o terceiro sopapo. Ainda viu um esguicho encarnado manchar a parede caiada. O bebé chorava. O PIDE da gabardina apoiou-se na mesa, agora estável, e berrou: «Com que então és comunista…»
Os outros reviravam tudo, mas não encontraram nada.
Isaurinha nunca tinha aprendido a ler, e questionava-se sobre quereria dizer «comunista». E Joaquim, ao ser arrastado para fora de casa, lembrou-se que nunca vira o mar.
Um camarada da mina tinha-lhe contado que, no forte de Caxias, quando a maré enchia, era preciso tirar a água das celas com um balde para não se morrer afogado. Mas, naquele momento, o que mais o intrigava era como é que eles não tinham conseguido dar com panfleto.
espectro
•22 Abril, 2008 • Deixe um Comentárioo cheiro dela ainda paira como uma neblina no corredor. deixou um rasto subtil de perfume que só o nariz dele detecta e identifica. naqueles dias que nunca mais acabam e se esticam até ao cair da noite e em que ela, mais uma vez, não aparece, ele arrasta-se até lá de narinas dilatadas. e consola-se com o seu nariz de perdigueiro.
o tempo, comentou ela no dia em que a sentiu mais próxima, acabaria por resolver tudo e tudo sarar. queria tanto metê-la na cama que foi incapaz de a contrariar. de lhe falar das lâminas afiadas do tempo a retalha-lo lentamente, sempre que ela não lhe aparece. daquela dor, quase imperceptível, mas constante. agora, é ela a dizer que tudo está pior. dilata outra vez as narinas e segue-lhe o rasto até ao fim do corredor. desta vez, para apagar a luz que ela deixara intermitente.
Parado no semáforo
•19 Abril, 2008 • Deixe um Comentário
O semáforo está vermelho. O rapaz olha de soslaio para a faixa do lado. O homem ao volante da pick up tem ar de gangster mexicano. Fuma. O braço esquerdo pende para fora da viatura. Leva o cigarro à boca e inala profundamente, antes de deixar cair a ponta por apagar na estrada. O rapaz indigna-se: «Amigo, deixou cair uma beata na via pública…»
O gangster com ar de mexicano remexe no porta-luvas com a mão direita. Saca de um revólver reluzente e aponta-o.
O sinal fica verde. O rapaz engata a primeira, mas hesita. «Não me vai matar por causa de uma beata de cigarro…»
«Já matei por menos», responde o homem, premindo o gatilho.



