Aerograma
Querida Mariana,
faz tempo que não te escrevo. Agora é que já perdi toda a esperança. Estou certo de que a minha mãe te contou que fui ferido em combate. Menti-lhe quanto à gravidade do ferimento. É pior do que lhe contei. Ao pisar aquela maldita mina, fiquei sem parte da perna esquerda, com que tanto me ajeitava para rematar à baliza. Lembras-te? Não soube como contar-lhe sem a deixar de rastos. Contei-lhe que tinha sido um ferimento ligeiro. Por favor, não lhe digas a verdade. O desgosto pode esperar. Escrevi-lhe também que iria ser condecorado. A pobre mal sonha que a Pátria retribui os membros perdidos em campanha com a medalha de mutilados de guerra. É estranho, Mariana. Às vezes ainda sinto a perna doer-me? É como se ainda estivesse lá, com o pé, os dedos e tudo. Perdi-a e para quê? Lembras-te daquela cantiga que ouvíamos “Mande embora a sentinela/ Mande embora e cale o seu canhão”
Mariana, quanto a nós, só peço que não esperes. Sê feliz.
